Travesti

Prostituição, Sexo, Gênero e Cultura no Brasil

Travesti Don Kulick
O livro do antropólogo norte-americano Don Kulick, é uma profunda análise de campo sobre as travestis de Salvador, Bahia, Brasil, realizada em meados da década de 90. O livro foi inicialmente publicado nos Estados Unidos, e depois no Brasil pela Editora Fiocruz. O autor é professor de antropologia e diretor do Center for the Study of Gender and Sexuality, New York University.


O texto é importante por várias razões. As pessoas vêem as travestis nas ruas, na televisão e na mídia em geral, mas poucos fazem idéia de como estas pessoas vivem, o que pensam e qual a sua trajetória pessoal. Kulick viveu entre elas em uma humilde casa perto do Pelourinho, no centro de Salvador. Tornou-se um observador neutro, até mesmo confidente de algumas, e conseguiu observar seu modo de vida, conhecer suas idéias, sonhos e problemas, reais ou imaginários.

O livro é dividido em cinco partes: A Vida das Travestis em Contexto; Virando Travesti; Um Homem em Casa; O Prazer da Prostituição; e Travesti, Gênero, Subjetividade. O texto é claro, objetivo, respeita o vocabulário das entrevistadas e consegue, por meio de uma articulação entre argumentos, proposições e análises, tecer uma linha explicativa do mundo das travestis sem que preconceitos ou apologias o contaminem.

As travestis são homens, mas exigem ser tratadas no feminino. Vestem-se de mulheres, tomam hormônios ou aplicam silicone para parecer mais mulher, porém, no ato sexual com seus clientes muitas vezes fazem o papel ativo. São femininas na aparência e másculas em várias atitudes, podendo chegar à violência para se defender. Se o mundo homossexual masculino já foi razoavelmente estudado por sociólogos, educadores, psicólogos, historiadores, antropólogos, literatos e profissionais da área da saúde, as travestis permanecem uma incógnita contraditória para muitas pessoas, com poucos estudos científicos publicados no país. Elas são homossexuais, aliás, consideram-se os mais corajosos e genuínos, e não admitem mudar de sexo. Possuem ética e moral próprias, que desenvolvem em seus grupos de vivência. Prostituem-se e, por outro lado, "bancam" namorados para ter ao seu lado um homem, pagando-lhe casa, roupas, alimentação e diversão. Vivem na marginalidade social e no falso glamour existencial. Hoje, são símbolos em vários países europeus, ao lado das prostitutas e michês, da liberalidade e exuberância sexual brasileira.

Em vários pontos do livro (p. 151 e 196-202), Kulick avança na discussão conceitual e metodológica ao analisar um ponto freqüentemente escamoteado ou distorcido pelos analistas: a questão do prazer. A prostituição travesti é, além de uma fonte de renda, uma experiência prazerosa e recompensadora. É um trabalho visto como qualquer outro e é nesse campo que elas são reconhecidas socialmente. Há uma crítica lúcida e oportuna (p. 196) sobre a ausência de prazer que as prostitutas teriam em seu trabalho e que "o sexo colocado à venda torna-se necessariamente degradante e desagradável". Isso nem sempre pode ser considerado verdadeiro, seja com prostitutas, michês ou travestis, mas neste caso específico, o autor elabora de forma sólida a postura de que o prazer é uma possibilidade real no relacionamento entre travesti e cliente.

É importante analisar a dimensão do prazer para evitar moralismos e preconceitos em relação à atividade sexual profissionalizada, ou seja, a prostituição. Para os profissionais de educação, saúde pública, cientistas sociais e políticos, conhecer as nuances da vida desse segmento social ajuda a preparação de suas bases de trabalho junto a estas populações e diminui a resistência provocada pela ignorância ou discriminação.

Um outro ponto importante é a análise do momento de entrada na atividade de prostituição e o processo para que os meninos ou adolescentes assumam a vida, corpo e mente de uma travesti. Os diálogos reproduzidos mostram a visão desses meninos, extasiados e amedrontados frente a uma nova dimensão existencial. O prazer e o dinheiro, a possibilidade de ganhar a vida vendendo seu corpo, as ilusões ao lado da realidade brutal do cotidiano são mostrados pelo ponto de vista e palavras das travestis.

O tópico sobre Os Clientes (p. 171-180) toca em um assunto comentado mas geralmente visto como "lenda urbana" ou curiosidade: os clientes das travestis são homossexuais enrustidos que não querem sair com um homem e procuram uma "fêmea fálica" ou buscam prazeres estranhos ao serem penetrados por um homem com corpo de mulher? O relato aponta que esses clientes, em sua maioria, gostam de se relacionar de todas as maneiras com as travestis, inclusive como agentes passivos no sexo. Esse imaginário fica evidenciado junto à população, especialmente quando há escândalos envolvendo celebridades e travestis, o que garante espaço privilegiado na mídia. Se o homossexual que se prostitui, o michê, é alvo de diversas pesquisas, textos literários, filmes e peças de teatro e sensibiliza o imaginário de algumas pessoas, a figura da travesti eleva esta sensibilidade a patamares mais altos.

A comparação que as travestis fazem entre si e as mulheres é outro tópico que envolve as questões de gênero e de sexualidade comercial. "As idéias sobre travestis e mulheres também se manifestam em uma relação tensa, problemática e antagônica; uma relação em que as travestis são o reflexo, mas as mulheres são o espelho" (p. 214). Outra comparação é com os homens heterossexuais e homossexuais. Um parágrafo fundamental é: "Assim como as travestis não estão lutando para conquistar a condição de mulher, elas também não rejeitam a identidade e também não desejam a ambigüidade. Sua luta é pela homossexualidade. Elas almejam incorporar a homossexualidade. E desejam fazer isso da maneira mais completa, mais perfeita e mais bela possível. Ao passo que outros indivíduos do sexo masculino denegam e disfarçam o desejo pelo mesmo sexo, as travestis abraçam esse desejo e se deliciam com ele" (p. 233).

Desejo, prazer, identidade e subjetividade são amplamente comentados no livro. Se a questão "por que alguns homossexuais viram travestis?" não é claramente respondida - e talvez nem possa - a reflexão e descrição desse estilo de vida tão marcante no Brasil alcança novos saberes no texto de Kulick. Apesar de passados dez anos da pesquisa de campo, a temática mantém sua relevância, inclusive discutindo o trabalho dessas travestis na Europa, especialmente na Itália, onde são marcas registradas da exportação sexual brasileira.

Atingindo maior visibilidade social no contexto das lutas das lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros (LGBT) no Brasil e em vários países do mundo, as travestis são um segmento social que incorpora um preconceito ainda maior, graças à sua visibilidade e exposição pública (afinal um homossexual masculino ou feminino pode disfarçar sua opção, o que é quase impossível para uma travesti). Entender sua mente e vida é importante para as questões que envolvem cidadania, luta contra o preconceito, inserção social e estudos sobre sexualidade e saúde pública. Mas um dos pontos principais está no subtítulo do livro: cultura. A cultura LGBT no Brasil ainda possui traços não devidamente explorados e discutidos, e Kulick se propõe a contribuir para que estas lacunas sejam minimizadas. Entender a cultura dos diversos segmentos sociais implica ampliar seu espaço de cidadania e participação social e política. Ao lado, é claro, do prazer em viver de acordo com suas convicções, algo importante em uma sociedade pluralista e democrática e uma prática constante, para garantir esses espaços e manter a dignidade própria de cada grupo social.

Por Luiz Gonzaga Godoi Trigo
Escola de Artes, Ciências e Humanidades, USP, São Paulo, Brasil.

Travesti: Prostituição, Sexo, Gênero e Cultura no Brasil
Autor Don Kulick; Editora Fiocruz; 2008. 280 pp.
ISBN: 978-85-7541-151-3

4 comentários:

Carlos da tijuca(verdadeiro) disse...

Ao ler o trecho extraído, me manifesto em não concordar com DON KULLICK.
Pois, a realidade mostra-se diferente.

As TRAVESTIS são pessoas maravilhosas. Nisto concordamos.
Mas, elas se excitam justamente por e pela AMBIGÜIDADE.
Ora, pois. Esta é a própria RAZÃO DA EXISTÊNCIA delas como TRAVESTIS. Já que, pela lógica (e sentimentos) elas são VIRÍS E FEMININAS AO MESMO TEMPO. Diferentes não só das Trans, mas também das Mulheres (gays ou não) e homens (gays ou não).
De todos, as TRAVESTIS são muito mais ecléticas e articuladas.
ILIMITADAS mesmo, e com excelente MENTE ABERTA, ESPÍRITO LIVRE quanto ao SEXO e a VIDA, NUM TODO. Nisto elas SÃO ÚNICAS. É uma exclusividade típicamente DELAS.
Por tudo isto e mais ainda, elas são Seres encantadoras que TRANSCENDEM e SE TRANSCENDEM, numa eterna ALQUIMIA INTERIOR E EXTERIOR.
Estão ACIMA de todos os conceitos criados pelos outros (por isto não são compreendidas).
Elas estão muito À FRENTE. SÃO FANTÁSTICAS.

katy xavier disse...

Sou trans e sou de programa

Anônimo disse...

Ola. eu nunca tive relacoes com trans mais gostaria muito de conhecer uma aqui do rio de janeiro para realizar meu dezejo de tranzar com alguen que sempre sonhei??? Tel 021 993407577 claro

Bruno Vinicius disse...

Deixa seu whats gata pra bois marca